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Quotidien Universitaire Convivendo com o inimigo. Quem via o pobre Biruleiby dentro daquela rasa bacia laranja enfiada numa prateleira no meio da sala, jamais iria imaginar que aquela minúscula criatura que brilhava no escuro sofreria tanto. Eu fui dividir um apartamento com uma colega, junto com minha companheira felina, a Wicca. Mesmo que o aviso ‘não tem problema, contanto que tua gata não coma meu peixe!’ fosse de tirar o sono todas as noites, a confiança na Wicca era maior. Afinal, ele era tão sem perspectiva de vida, que ela jamais notaria que lá, habitava um peixe. Na verdade, ela nem sabia o que era um peixe! Esse foi meu pior erro. Acreditar na pureza de um animal traiçoeiro. E o destino tentava me mostrar em vão que aquela convivência arriscada jamais daria certo. Na tentativa de estreitar nossos laços de amizade, alimentar o minúsculo peixinho simpático que brilhava no escuro pareceu uma ótima idéia. O saquinho de comida para peixe não fez a gentileza de explicar a quantidade necessária para alimentar um peixe daquele tamanho. Num ato brusco e eufórico, cobri o Biruleiby com várias daquelas bolinhas de comida mais minúsculas do que o próprio Biruleiby. Mas um segundo de lucidez me fez ter um pingo de noção que aquilo era exagero. Aham! Trocar a água e alimentar o minúsculo peixinho de novo! Idéia mais brilhante não poderia existir. Pega a bacia, leva pra cozinha. Apóia na pia, pega um copo. Cata o Biruleiby com a mão e pronto. Ele esta a salvo enquanto lavava cheia de orgulho a bacia. Bacia limpa, Biruleiby de volta. É mais ou menos. Levar o minúsculo peixinho de volta pra maldita bacia sem derrubar uma gota da água suja que tava no copo, foi bem mais difícil do que eu esperava. Cata daqui, chama dali, até que “Ah!”!! Ele simplesmente foi parar atrás do balcão da pia! Como se isso já não bastasse pro meu desespero, um simples olhar 43 em direção a porta e ela já podia ser vista. Com aquele olhar faminto e curioso, ela olhava o coitadinho se debater no piso frio e seco. Wicca não se mexe! Era só o que eu conseguia pensar naquele momento. Estada dividida entre segurar aquele felino em posição de ataque ou descolar o balcão da parede e salvar o quase morto minúsculo peixinho? Não que eu tenha tomado uma decisão, acho que foi puro reflexo: catar o Biruleiby do chão sem dar tempo pra Wicca devorar o pobrezinho. Pronto! Ela já sabia que aquilo era um peixe e que ele vivia na prateleira no meio da sala. Solução? Isolar ainda mais aquele serzinho tão indefeso e sem reação. Lá ia o Biruleiby pra cima da prateleira. Lugar mais alto da casa. Ufa! Ele estava a salvo. Agora podia eu dormir tranqüila e feliz, sem imaginar que o pesadelo estava apenas começando. Wicca sai daqui! Tu ta ensopada gata! No meio do meu tranqüilo e precioso sono, imaginava que ela estava molhada da chuva, torneira ou afins. Mas jamais imaginei que a água vinha de lá. Sim, do lugar mais alto da casa, de cima da prateleira. Horas depois acordei e “Ah!” novamente! Ele estava lá! Duro, arranhado, num cantinho da sala, morto! Já não sabia mais se minhas lagrimas era pela morte do minúsculo peixinho ou pelo medo da reação da dona do Biruleiby, que a hora que chegasse em casa e visse a rasa bacia laranja de volta no armário da cozinha. Corri até o minúsculo defunto e taquei-o na água de novo, numa esperança remota que ele voltasse a nadar imediatamente. Mas foi Fui trabalhar desolada, acabada, de luto! O dia perdeu totalmente a graça e qualquer coisa me fazia lembrar aquele peixinho. Mas a volta pra casa foi pior. Como iria enfrentar aquele minúsculo defunto largado na rasa bacia laranja e joga-lo fora? E o pior! Encarar a gata malvada que fez tudo aquilo de ruindade. Custava ter comido o peixinho? Custava me poupar de toda aquela cena lastimável? Respirei fundo, entrei em casa, e me deparei com ele. Novamente um “Ah!” foi a minha única reação. Ele estava de ladinho, tendo espasmos ritmados dentro da bacia. O Biruleily ressucitou! Nem acreditava. Ria! Liguei pra pai, mãe, amiga. Todos deviam saber que ele estava a salvo. Os dias que seguiram aquela quase tragédia foram lindos e felizes. Com a dona de volta em casa, tenho certeza que Biruleiby sentia-se mais seguro. Sim, mas um “Ah!” nessa historia. No meio do filme tive a brilhante idéia de lembrar da cena lastimável da quase morte de Biruleiby. Olhei para o mesmo cantinho no canto da sala e não acreditei no que estava vendo. Lá estava ele de novo. Morto! Seco! Cheio de formigas! E marrom! Dessa vez não tinha mais jeito. Tah, aquilo ali é o Biruleiby? O maior “Ah!” de todos foi solto naquela hora. – Eu vou matar a Wicca! Era a única coisa que ela dizia. Lógico que eu tentava convencê-la que não era culpa da Wicca, ela não devia ter noção do que estava fazendo. Quer saber, disse ela, põe isso daí fora antes que eu te faça comer. No tempo que ela secava as lagrimas, o pobrezinho já estava pronto pra ser tacado na privada. Dizem por ai que todo esgoto da no mar, logo, seria uma morte digna, mesmo ele não sendo um peixinho marinho. Ela não quis nem presenciar a cena. Aquilo era castigo pra mim. Adeus minúsculo peixinho. Azar o seu não ter sete vidas como a minha gata. Escrito por Helena Schroder às 13h27 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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